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Laguna 2- História

25/04/2009

Ao Sul Conduzi o Brasil

Quem visita Laguna hoje, com sua população girando em torno de 50 mil habitantes, não imagina a importância da cidade até 200 ou 250 anos atrás.
Embora haja vestígios de passagens de homens brancos pela localidade desde as primeiras décadas após o descobrimento, visto geograficamente ser um porto natural, Laguna foi fundada, como povoamento, por bandeirantes paulistas de São Vicente, que já vinham em diferentes expedições descendo o litoral, fundando São Francisco do Sul e Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis.

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Em 1676, chegou até ali o bandeirante Domingos de Brito Peixoto, já sujeito de posses, com seus filhos Francisco de Brito Peixoto e Sebastião de Brito Guerra. Junto com eles, índios, escravos e aventureiros colonos. Tratou de ganhar o terreno, de posse dos nativos, e erguer uma capelinha com a imagem de Santo Antônio dos Anjos. Como era hábito batizar as localidades sempre em nome de santos (como São Sebastião do Rio de Janeiro), fica assim chamada a localidade de Santo Antônio dos Anjos de Laguna.

Embora, coincidentemente, em Laguna terminasse a linha reta do Tratado de Tordesilhas, que definia o fim do território português, isso não impediria o avanço bandeirante, que se aventurava Brasil a dentro. Mas Domingos de Brito Peixoto voltou para São Vicente.

Estátua de Francisco de Brito Peixoto, em Laguna. Seus restos mortais estão na Matriz da cidade.

Estátua de Francisco de Brito Peixoto, em Laguna. Seus restos mortais estão na Matriz da cidade.

Mais tarde, o filho do fundador, Francisco de Brito Peixoto, voltou para abrir caminhos e picadas em direção ao Rio Grande de São Pedro, atual RS, e às campanhas de Buenos Aires. Em busca de minas de prata que se especulava existir nessas regiões, os exploradores deram de cara com outra riqueza: bois e cavalos criados soltos por mais de um século, resultados da implantação (e também posterior destruição) das missões jesuítas na região. O imenso rebanho atraiu colonizadores, dispostos a  se instalar em um lugar ainda distante e ermo, porém com imensas possibilidades de enriquecimento.

Laguna virou então o principal pólo irradiador da colonização do território riograndense. Na história de várias cidades do RS têm-se os colonizadores paulistas e lagunenses como elementos fundadores. Dali partiam os desbravadores e colonos, e para ali voltavam o couro, o boi ou o charque, que pelo porto partiam para São Paulo.

A autonomia dos tropeiros não poderia depender do transporte marítimo. Transportar “boi em pé” em barcos não era produtivo. Então desde cedo buscou-se fazer uma trilha por terra que saísse das campanhas gaúchas até Sorocaba, então principal ponto de comércio de gado “em pé”. Logo que o “caminho dos tropeiros” foi definitivamente assentado, uma fabulosa trilha (repetida em tempos modernos deu mais de 1.700 km), a importância de Laguna nesse comercio começou a declinar.

Mas ainda foram de Laguna que partiram muitos regimentos e batalhões para os combates do sul, como a Guerra contra Artigas, a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai.

A Batalha do Riachuelo, do catarinense Victor Meirelles.

A Batalha do Riachuelo, do catarinense Victor Meirelles.

Nesse cenário que Anita e se criou. Laguna estava ainda como destino de passagem  de tropeiros e de embarque de cargas, mas talvez fosse um lugar de mais importância estratégica do que econômica.

Com a pacificação do sul, a definição das fronteiras e a estabilidade da colonização de todo o território riograndense, restou a Laguna seu porto protegido pelo seu estreito canal.

Mas no início do século XX, com a implantação de estradas de ferro e portos mais abertos, como o da vizinha Imbituba, a importância estratégica da cidade desapareceu. Durante muitas décadas, Laguna estacionou no tempo, cercada pela sua exuberante geografia, que enquanto a bordava de belezas, a impedia de qualquer avanço econômico. A vocação de Laguna seria turística, atividade que só se estabeleceria como força econômica décadas depois.

Talvez essa estagnação de atividades econômicas e esse “esquecimento” de Laguna pelo resto do país tenha sido a grande responsável pela preservação do casario e do conjunto arquitetônico que se mantém hoje como um valioso patrimônio. O progresso não chegou na cidade como uma onda de “novo” que derruba o “velho” impiedosamente. A situação obrigava o “velho” a se manter em pé, sem outra alternativa. Até que, quando o progresso enfim chegou, percebeu que o “velho” já tinha virado antigo, e o derrubar para modernizar seria um grande erro.

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Provavelmente boa parte da população ansiava pela mudança, eu mesmo cheguei a ouvir, quando jovem, na época do tombamento do casario de Laguna: “É bom que tombem tudo mesmo, essas casas velhas, e construam coisas mais novas”. Nesse língua maluca que é o português, “tombar” de derrubar é a mesma palavra de “tombar” de inventariar, manter sob proteção histórica.

Para a alegria de futuras gerações, o “tombamento” da segunda opção foi o que prevaleceu.

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Mas, lembrando a força e importância que Laguna teve na atual formação do Brasil, e da sua atuação fundamental na colonização da potência que virou seu estado vizinho do sul, o brasão da cidade, desenvolvido pelo Afonso d’Escragnolle Taunay (filho do Visconde de Taunay, e bisneto de Nicolas-Antoine Taunay, pintor trazido com Debret para o Brasil), traz entre outras coisas, a figura do bandeirante, do soldado Barriga Verde e a inscrição em Latim:

AD MERIDIEM BRASILIAM DUXI.

Ao sul, conduzi o Brasil.

Brasão de Laguna

Brasão de Laguna

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Link e entrevista

14/04/2009

Um pouco mais sobre o álbum  de Anita Garibaldi em quadrinhos.

http://www.belasantacatarina.com.br/noticias/2009/04/06/Anita-e-Giuseppe-Garibaldi-em-quadrinhos-4560.html

Wolfgang Ludwig Rau

14/04/2009
Wolfgang Ludwig Rau, em foto do site www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Wolfgang Ludwig Rau, foto do site http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Morreu, aos 93 anos, no dia 07 de fevereiro, em Florianópolis, Wolfgang Ludwig Rau.

No meio de tantas informações e livros sobre Anita, passei despercebido pela notícia, que me chegou somente hoje. Com muito atraso, portanto, vou tentar aqui fazer uma pequena homenagem ao maior biógrafo de Anita Garibaldi.

Rau era Suíço de origem alemã. Chegou ao Brasil em 1930, aos 14 anos, fixando-se em Lages. Naturalizou-se brasileiro em 1940, durante a Segunda Guerra, e prestou o serviço militar em Curitiba em 41. Engenheiro, projetista e arquiteto, foi sócio de várias firmas de engenharia e arquitetura em Lages e Florianópolis, onde fixou residência.
Era maçon, membro de várias comunidades garibaldinas e de pesquisas, que, ao longo dos anos, foram reconhecendo seus estudos e lhe concedendo títulos e medalhas de méritos.

A princípio como interessado em conhecer (e retribuir) ao país que tão bem o acolheu, foi estudar a história de Anita Garibaldi. Mas aos poucos essa curiosidade histórica se transformou em uma grande paixão, dessas que se pudessem, transporiam a fronteira tempo-espaço. Sua fixação à Anita era tão grande que sua segunda esposa tinha as feições muito parecidas com as imagens mais conhecidas da heroína, e ele fazia questão de que ela se apresentasse vestida “de Anita” em eventos em que era convidado ou homenageado.

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

Em uma época em que os recursos e facilidades não existiam, fez, por conta e recursos próprios, dezenas de viagens aos sítios históricos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai, Itália, refazendo o caminho de Anita e de Garibaldi, levantando documentos, objetos, depoimentos, tirando fotos e cópias de tudo o que pudesse, além de comprar objetos dos mais variados tipos. Este acervo garibaldino ficou durante décadas em um apartamento em Florianópolis. Generoso e desejoso de que Anita tivesse sua história e seu valor mais reconhecido, abriu as portas de seu acervo, construído de forma tão difícil e trabalhosa, para todos os que quisessem pesquisar ou escrever sobre a personagem. E assim, muitos autores, nacionais ou estrangeiros, beberam de suas fontes e construíram suas obras a partir do que ele conseguiu juntar.

Também escreveu, claro. Anita Garibaldi, O Perfil de Uma Heroína Brasileira, de 1975, é seu livro mais conhecido, até hoje sem republicação. Um catatau de quase 530 páginas, com algumas informações até então inéditas, fotos e ilustrações.

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Como arquiteto, Rau arriscava tracejar também mapas e ilustrações, muitos deles reproduzidos em livros de autores posteriores.

Em 2006 o acervo garibaldino de Rau foi comprado pelo Governo de Santa Catarina depois de um longo processo burocrático, e cedido à Laguna. Encontra-se hoje na casa Pinto Ulysséa, ao lado da fonte Carioca, no centro de Laguna.

Não se encontra dentro dos melhores estados de conservação, e nem com apresentação à altura. Fazem falta coisas óbvias, como material explicativo aos visitantes e funcionários minimamente informados sobre a históra de Anita e os objetos do acervo. Até mesmo a localização ao lado do complexo da fonte da Carioca, que ocupa uma área grande de mato e pé de morro, além de cisterna, atrás da bela casa Pinto Ulysséa, deve proporcionar uma umidade que não indica bom local para um acervo de livros raros e materiais tão perecíveis. Não é preciso muito trabalho para achar problemas sérios: quando visitei, entre dezenas de coisas, vi um brasão do Império Brasileiro em madeira, todo cheio de buracos com cupins trabalhando à todo vapor, fatalmente levando a pequena peça a caminho da ruína.

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

De qualquer forma, o acervo hoje é um bem público, acessível a visitação, localizado na cidade onde mais está presente a heroína para qual o pesquisador dedicou sua vida. Ele fez, e muitíssimo bem, a parte que achou que devia.

E sem a qual o meu modesto projeto não seria, de forma alguma possível.

Detalhes tão pequenos de nós dois…

09/04/2009

Uma pequena mostra da dificuldade de construir um roteiro histórico, que mescla aventuras, romance, batalhas e deslocamentos por terra e água, geralmente com pouca documentação.

Anita e Garibaldi fizeram uma verdadeira epopéia de deslocamentos, desde que se conheceram até que foram assentar-se no Uruguai.
Parte desses deslocamentos aconteceu já quando ela tinha seu primeiro filho, saindo de Mostardas, passando por Viamão, Vacaria, Cruza alta, São Gabriel. É como fazer um quadrado dentro do estado do Rio Grande do Sul, mas sem completar o último lado.
A parte mais difícil deste trajeto foi logo no início, a subida da Picada das Antas, um vale sinuoso formado pelo rio das Antas, cujo leito em zigue e zague oferecia na época uma das poucas alternativas de se subir o paredão da Serra Geral vindo da campanha gaúcha para Vacaria. De tão difícil, até hoje é uma região bastante preservada. Foi uma subida dura de 9 dias embaixo de chuva, e quase todos os animais e parte das pessoas que iniciaram o trajeto não chegaram ao fim, sobretudo mulheres e crianças. Não à toa, próximo dali, formaram-se anos depois algumas cidades que, em homenagem, ganharam alguns nomes que por ali passaram nessas heróicas idas e vindas: Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha.

Garibaldi descreve, em seu relato transcrito por Alexandre Dumas, logo na primeira linha do capítulo “Picada das Antas”:
“Aquela retirada, empreendida sob estação hibernal”….

Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, LP&M, 1998, pg 106

Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, LP&M, 1998, pg 106

Quase todos os historiadores consultados foram na onda dele.
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Mas não fazia sentido.
Anita teve seu filho antes, em setembro de 1840. Primavera.
Este deslocamento da tropa farroupilha, que, deduzindo por relatos, durou 3 meses, chegou ao fim documentadamente em março de 1841. Quase outono. E Garibaldi afirma que seu filho tinha 3 meses quando subiram a Picada das Antas.
Portanto, a subida da serra das Antas se deu entre dezembro de 40 ou janeiro de 41 (confirmando o próprio Rau, no livro “Vida e Morte de José e Anita Garibaldi”).

Wolfgang Ludwig Rau, Vida e Morte de José e Anita Garibaldi, Edição do Autor, 1898, pg 51

Wolfgang Ludwig Rau, Vida e Morte de José e Anita Garibaldi, Edição do Autor, 1898, pg 51

Como se sabe, seja no Mato Grosso, na Argentina ou no Rio Grande do Sul, dezembro não é inverno abaixo do equador. Foi um verão de muitas chuvas, e o clima da Serra deveria ser muito frio, sobretudo para quem ficou 9 dias molhado e sem abrigo. Garibaldi foi traído pela memória ou pela retórica, clima de inverno não quer dizer estação do ano.
Não havia lógica na informação, mas as fontes confirmavam. Para esclarecer, foi necessário montar todo o quebra-cabeça, preencher lacunas e conseguir achar o período exato da epopéia.

As vezes ficamos dois dias ou mais apenas procurando esclarecer um detalhe como esse, para poder contar a história de forma linear e clara.

Como justiça, declare-se que tanto Rau quanto Brasil Gerson não foram pela lembrança de Garibaldi. Rau, em “Anita Garibaldi”, não repete que “era inverno”, mas também não aponta o erro de Garibaldi, talvez por considera-lo sem importância.
Já Brasil Gerson, apesar de escrever uma biografia romanceada, corrige claramente:

Brasil Gerson, Anita e Garibaldi, Guerrilheiros do Liberalismo, José Bushatsky Editor, 1971, pg 49

Brasil Gerson, Anita e Garibaldi, Guerrilheiros do Liberalismo, José Bushatsky Editor, 1971, pg 49

Roteiro rascunhado

09/04/2009

Roteiro rascunhado

Relembrando o post anterior, em que o texto básico do roteiro era feito, depois o roteiro (ou parte dele) escrito (e reescrito) e distribuído em páginas, já como blocos de textos de balões, e depois desenvolvidos como desenhos, mas ainda rabiscados em garranchos quase incompreensíveis.
Agora vem a primeira etapa em que o “desenho” aparece.
Estas folhas em A3 com cada uma 2 páginas espelhadas de garranchos bastante primários, servem de rascunho para desenhos um pouco mais nítidos.
Não são ainda nem de longe desenhos definitivos, que, no meu caso, serão desenhados muito maiores, mas a partir desta etapa já se pode ler a história, pensar no enquadramento, nos ângulos que o quadrinho vai mostrar de cada “tomada”.
Dá também para se ter mais noção da dificuldade que alguns quadros vão criar, e também a pesquisa que será necessária para resolver aquele desenho específico (uma construção da época, um cavalo, um tipo de barco, uma posição complicada de alguma figura, um objeto obsoleto difícil de encontrar, etc).
A partir daqui, podemos passar o trabalho para algumas pessoas, para começar a pegar opiniões de leitores. Olhar de outros leitores pode trazer contribuições valiosas para a clareza, fluidez e compreensão.

A partir daqui, se o roteiro estiver todo pronto e a história não tiver falhas estruturais, é como se fosse um projeto de casa: estão feitos os estudos de terreno, análise do solo, escolha de materiais e a planta está aprovada. Você olha no calendário e vê que o prazo andou rápido. E só agora é que vai começar a construir.

O grosso do trabalho vai começar.


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