Archive for the ‘pesquisa’ Category

Viagem ao Uruguai

22/06/2011


Estive em Montevidéu, no Uruguai, pesquisando sobre a vida de Anita e Giuseppe Garibaldi por lá.

Eles viveram na capital celeste entre 1841 e 1848. Na cidade tiveram três filhos (uma, Rosita, morreu com dois anos).

Em Montevidéu, Anita pode ter uma vida de mãe e dona de casa. O que não significa que ela nao tenha tido lá suas aventuras bélicas, como na Batalha de Salto, a 400 km dali.

Montevidéu, vista dos molhes. À direita, ramblas e casas, à esquerda, o porto e o por-do-sol.

A origem do nome Montevideo é controversa, mas entre as versões existentes, a mais aceita é que os navegadores vinham beirando a costa, e algumas elevações eram notadas como ponto de referência. Havia um monte bem localizado, onde o porto era mais fácil e o terreno mais acessível. Era o sexto monte ao oeste. Em carta geográfica, “Monte VI de O”.

Casa-pensão onde Anita passou cinco dos sete anos de Uruguai.

Anita e Giuseppe viveram nesta casa acima, localizada na rua 25 de Mayo. Na época era uma rua chique, hoje nem tanto, embora conserve algumas construções classudas e comércios finos.

O Dr. Luis Augusto Rodriguez Díaz, Sub-diretor do Museo Histórico Nacional fez a imensa gentileza de sair de seus afazeres na sede do museu, abrir pessoalmente a Casa de Garibaldi e me guiar pelo acervo, que abre apenas às segundas-feiras (no mês de junho).

Durante a visita, coincidentemente apareceu um grupo de jovens italianas, vindas de Lecco, especialmente para estudar a vida de Garibaldi no Uruguai. Dr Luis Augusto pediu para que eu contasse sobre o encontro de Anita e Garibaldi em Laguna e como foi o começo da vida deles. Foi um minestrone de português com espanhol e italiano.

Eu cercado pelas colegiais italianas, tentando me fazer entender. Foto do cartunista Gilmar Barbosa.

Além da visita a este museu, a viagem pretendia obter imagens de Montevidéu na época, além de outras informações relacionadas aos personagens envolvidos. Em 4 dias, consegui quase tudo que eu queria, além de conhecer o Mercado del Puerto, o chivito, o Dr Luís, o Padre Néstor Falco, a brasileira Xênia, muitos donos de sebos, algumas patrícias, etc…

Nos próximos posts, alguns destes personagens, as relíquas obtidas por lá e fotos desta viagem.

Retificações sobre Anita Garibaldi

03/08/2010

Em matéria publicada em jornal e republicada por alguns blogs, consta como afirmação minha de que Anita nasceu em Laguna.

Isto não procede. Talvez por algum erro de interpretação de alguma frase, o reporter creditou esta frase como dita por mim.

Na verdade, ninguém pode afirmar, até o momento, onde exatamente nasceu Anita Garibaldi. Pode ser em Mirim ou Morrinhos (antigamente pertencentes a Laguna), ou em Lages, no planalto cartarinense. Como nunca foi achado um documento que respondesse a esta dúvida, no próprio livro eu deixo esta hipótese em aberto.

O mesmo vale para a data de nascimento dela. Até o momento, não foi achado nenhum registro original de seu nascimento, sabendo-se, apenas, que ela nasceu no ano de 1821.

Fica o registro para que alguns equívocos não se perpetuem.

Homenagem a Anita neste 04 de agosto

03/08/2010

Neste dia 04 de agosto completam 161 anos da morte de Anita Garibaldi.
Para homenagear a Heroína de Dois Mundos, vamos publicar neste blog quatro páginas de quadrinhos do álbum.
As páginas serão exibidas das 10 às 22 horas, sendo retiradas após este horário.

A intenção, além de promover o livro lançando em São Paulo no último sábado, é chamar a atenção para a data e dar a leitores de outras cidades a oportunidade de conferir parte do conteúdo do álbum.

Lembrando que o livro encontra-se à venda pelo email anita@custodio.net

Até lá.

Anita Garibaldi, o Nascimento de uma Heroína

11/07/2010

A infância de Anita Garibaldi sempre foi coberta de mistérios.
Seus feitos extraordinários, quando, ainda muito jovem, encontrou Garibaldi, e a ausência de dados e informações seguras sobre os primeiros anos da “Aninha do Bentão”, como era conhecida, fizeram desta parte de sua vida um detalhe menor.

Depois de três anos pesquisando para a confecção deste álbum, que tinha um prazo e um número de páginas mais ou menos estabelecido, percebi em certo momento que seria impossível fazer uma biografia em quadrinhos completa dentro deste limite.
Entre contar bem parte da história ou contar de forma precária a história toda, a primeira opção foi a escolha mais correta.
Nesse sentido, o trabalho, dedicado somente a este período esquecido da vida de Anita, é inédito.

Anita Garibaldi, o Nascimento de uma Heroína vai ser lançado em São Paulo, 04 de agosto, dia em que sua morte fará 161 anos.
Maiores detalhes por aqui, nos próximos dias.

Capa do álbum Anita Garibaldi, o Nascimento de uma Heroína

Roma não se fez em um dia

10/10/2009

Garibaldi fez uma viagem à Roma quando tinha 17, 18 anos.
Sendo ele Nizardo (nascido em Nizza/Nice- cidade mezzo italiana, mezzo francesa), essa viagem o impressionou e definiu dentro dele a inclinação para ser “italiano”. Na época a Itália era mais um estado de espírito do que uma nação, dividida entre vários reinos e sem unidade.
Para usar este trecho na história, tive que buscar uma imagem que simbolizasse a força de Roma e da Itália, para arrebatar o jovem Giuseppe.
Hoje há uma estátua de Garibaldi, olhando por Roma, no alto do monte Janículo. Foi neste monte e adjacências que Garibaldi fez parte (e sua fama) da defesa da cidade no cerco a Roma de 1849 contra os Franceses.

Estátua de Garibaldi no Janículo

Estátua de Garibaldi no Janículo

A idéia foi irresistível: Garibaldi jovem, em cima de um cavalo, deslumbrado olhando para a secular Roma, do mesmo ponto onde hoje sua estátua perpetua este olhar sem fim.
O monte Janículo era propício para tomadas e imagens, sendo o ponto de vista de algumas obras sobre Roma. Mas eu precisava de uma tomada geral de Roma, que fosse antiga o suficiente para ser a mesma de Garibaldi em 1825. Semanas buscando uma imagem até que me deparei com esta, de Giuseppe Vasi:

Prospetto dell'alma citta di Roma, Vista dal monte Gianicolo, Giuseppe Vasi 1765

Prospetto dell'alma citta di Roma, Vista dal monte Gianicolo, Giuseppe Vasi 1765

O problema é que a imagem, tirada do site Rome ArtLover, do apaixonado italiano Roberto Piperno, vinha em 72 painéis separados, que foram baixados e levaram alguns dias para serem “encaixados” até formarem um painal de 70 cm de largura em definição 300 dpi.

Nada deste trabalho se compara ao trabalho do autor ao desenhar Roma em 1765: ele desenhou a maior cidade do mundo à época casa por casa, assinalando cada ponto histórico, ou propriedades de famílias relevantes, quase 400 ítens, com direito a legenda .

Um dos 72 painéis pode ser visto neste link, que mostra o Capitólio e parte central da cidade. No mesmo site pode-se encontrar o resto das imagens além de outras do mesmo artista sobre Roma e seus portões e monumentos.

Após a montagem, imprimi toda a grande vista de Roma em uma imagem A3 e coloquei em mesa de luz, para adaptar ao meu traço e fazer a imagem que iria entrar na HQ. Algumas tardes resultaram nisto:

"Minha" Roma, muito modesta, baseada na de Vasi.

"Minha" Roma, modesta, baseada na de Vasi.

Pronto então o quadrinho que “arrebatou” Garibaldi, e me tomou quase duas semanas.

Garibaldi vê Roma do Janículo, do mesmo ponto onde está sua estátua hoje.

Garibaldi vê Roma do Janículo, do mesmo ponto onde está sua estátua hoje.

Bastidores de uma página

11/08/2009

Este blog foi criado para mostrar as curiosidades de se fazer um álbum de quadrinhos, sobretudo quando se trata de temas históricos. Como as minhas próprias dificuldades são o tema dos posts, seria injusto deixar esta página de fora. Ela mostra bem como uma página simples, a princípio, pode se transformar em um bom enrosco, como um quebra-cabeças.

Esta página é a introdução de Garibaldi na história. Mostra Giuseppe, ainda garoto, conversando com o pai.

Ambos são homens do mar, no caso, Garibaldi ainda um garoto com 14 anos mas já com água salgada correndo nas veias. Concebi a cena, que começa no último quadrinho da página anterior, com Garibaldi pai assinando a entrada do filho na marinha mercante. Eles conversam sobre assuntos que mostram mais ou menos a personalidade de cada um (o diálogo vai ser ocultado para preservar a surpresa), enquanto andam até o barco da família e pegam o mar. Sequência correta e simples para mostrar um pouco sobre eles.

Domenico Garibaldi assina o ingresso do filho na Marinha Mercante

Domenico Garibaldi assina o ingresso do filho na Marinha Mercante

Els conversam e acabam no mar.

Eles conversam e acabam no mar.

Mas aí o que acontece? Vem a pesquisa e te derruba todo.

Há uma praça em Nice que se chama Praça Garibaldi, que fica a poucas quadras do porto, onde a família Garibaldi tinha uma casa. Isso eu já sabia. A praça tem até uma estátua de Giuseppe, em frente à igreja do Santo Sepulcro de Nice e teve diversos nomes entre 1780 e 1870, quando ganhou o nome definitivo. Imagino que Garibaldi passava por lá diversas vezes na sua juventude. Resolvi colocar a praça na sequência, pois é uma cena irresistível: o garoto andando pela praça que vai ter seu nome um dia. Temos então que mudar a ação: Garibaldi e o pai chegam de barco, no porto de Nizza, no primeiro quadrinho. Para isso, precisamos do porto de Nice da época, que já havia sido pesquisado, inclusive com sua rampa de desembarque.

Porto de Nizza, a casa da família Garibaldi ficava à esquerda, fora da imagem

Porto de Nizza, a casa da família Garibaldi ficava à esquerda, fora da imagem. O desenho pode ser de Matania, mas não estou certo.

Como funcionava o porto, com suas rampas de embarque-desembarque, em obra de Isidore Dagnan.

Como funcionava o porto, com suas rampas de embarque-desembarque, em obra de Isidore Dagnan.

Detalhe da rampa.

Detalhe da rampa.

Claro que precisamos de imagens da Praça Garibaldi na época (que se chamou Praça Vittorio, Praça República, entre outros nomes). Também é necessário imagem da Igreja do Santo Sepulcro, em Nice, em 1821, já que ela teve a fachada modificada posteriormente.

Praça em 1855, com as feições originais de 1780. Jacques Guiaud.

Praça em 1855, com as feições originais de 1780. Jacques Guiaud.

Santo Sepulcro, Clement Roassal

Santo Sepulcro original, Clement Roassal

O cenário está pesquisado. Mas certamente, nesta época haveria muitos soldados e guardas do Rei do Piemonte e Sardenha circulando pelas rua, e já que pai e filho têm um diálogo político, os guardas devem aparecer para mostrar uma certa repressão. Achei um imenso arsenal  de imagens de exércitos de várias épocas no arquivo virtual da Biblioteca Pública de Nova Yorque. Estes são os uniformes de soldados e oficiais que circulavam por Nizza e Piemonte Sardenha entre 1820 e 1821 (Reis Carlos Alberto e Carlos Felix).

Arquivos da NYPL (The Vinkhuijzen collection of military uniforms)

Arquivos da NYPL (The Vinkhuijzen collection of military uniforms)

Arquivos da NYPL (The Vinkhuijzen collection of military uniforms)

Arquivos da NYPL (The Vinkhuijzen collection of military uniforms)

Já tinha então o suficiente para colocar pai e filho conversando na Nizza da época, e, com mudanças nos diálogos, finalmente a sequência pode ser feita.

Garibaldi pai e filho chegam ao porto

Garibaldi pai e filho chegam ao porto...

e conversam pela cidade.

e conversam pela cidade.

No fim das contas, uma página que demoraria um dia para desenhar e resolver, demorou mais de uma semana pesquisando uniformes e construções.

Tem aquela velha frase, preferida dos despachantes: pra que facilitar se podemos dificultar?

Laguna 2- História

25/04/2009

Ao Sul Conduzi o Brasil

Quem visita Laguna hoje, com sua população girando em torno de 50 mil habitantes, não imagina a importância da cidade até 200 ou 250 anos atrás.
Embora haja vestígios de passagens de homens brancos pela localidade desde as primeiras décadas após o descobrimento, visto geograficamente ser um porto natural, Laguna foi fundada, como povoamento, por bandeirantes paulistas de São Vicente, que já vinham em diferentes expedições descendo o litoral, fundando São Francisco do Sul e Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis.

mapa_tordesilhas_pq

Em 1676, chegou até ali o bandeirante Domingos de Brito Peixoto, já sujeito de posses, com seus filhos Francisco de Brito Peixoto e Sebastião de Brito Guerra. Junto com eles, índios, escravos e aventureiros colonos. Tratou de ganhar o terreno, de posse dos nativos, e erguer uma capelinha com a imagem de Santo Antônio dos Anjos. Como era hábito batizar as localidades sempre em nome de santos (como São Sebastião do Rio de Janeiro), fica assim chamada a localidade de Santo Antônio dos Anjos de Laguna.

Embora, coincidentemente, em Laguna terminasse a linha reta do Tratado de Tordesilhas, que definia o fim do território português, isso não impediria o avanço bandeirante, que se aventurava Brasil a dentro. Mas Domingos de Brito Peixoto voltou para São Vicente.

Estátua de Francisco de Brito Peixoto, em Laguna. Seus restos mortais estão na Matriz da cidade.

Estátua de Francisco de Brito Peixoto, em Laguna. Seus restos mortais estão na Matriz da cidade.

Mais tarde, o filho do fundador, Francisco de Brito Peixoto, voltou para abrir caminhos e picadas em direção ao Rio Grande de São Pedro, atual RS, e às campanhas de Buenos Aires. Em busca de minas de prata que se especulava existir nessas regiões, os exploradores deram de cara com outra riqueza: bois e cavalos criados soltos por mais de um século, resultados da implantação (e também posterior destruição) das missões jesuítas na região. O imenso rebanho atraiu colonizadores, dispostos a  se instalar em um lugar ainda distante e ermo, porém com imensas possibilidades de enriquecimento.

Laguna virou então o principal pólo irradiador da colonização do território riograndense. Na história de várias cidades do RS têm-se os colonizadores paulistas e lagunenses como elementos fundadores. Dali partiam os desbravadores e colonos, e para ali voltavam o couro, o boi ou o charque, que pelo porto partiam para São Paulo.

A autonomia dos tropeiros não poderia depender do transporte marítimo. Transportar “boi em pé” em barcos não era produtivo. Então desde cedo buscou-se fazer uma trilha por terra que saísse das campanhas gaúchas até Sorocaba, então principal ponto de comércio de gado “em pé”. Logo que o “caminho dos tropeiros” foi definitivamente assentado, uma fabulosa trilha (repetida em tempos modernos deu mais de 1.700 km), a importância de Laguna nesse comercio começou a declinar.

Mas ainda foram de Laguna que partiram muitos regimentos e batalhões para os combates do sul, como a Guerra contra Artigas, a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai.

A Batalha do Riachuelo, do catarinense Victor Meirelles.

A Batalha do Riachuelo, do catarinense Victor Meirelles.

Nesse cenário que Anita e se criou. Laguna estava ainda como destino de passagem  de tropeiros e de embarque de cargas, mas talvez fosse um lugar de mais importância estratégica do que econômica.

Com a pacificação do sul, a definição das fronteiras e a estabilidade da colonização de todo o território riograndense, restou a Laguna seu porto protegido pelo seu estreito canal.

Mas no início do século XX, com a implantação de estradas de ferro e portos mais abertos, como o da vizinha Imbituba, a importância estratégica da cidade desapareceu. Durante muitas décadas, Laguna estacionou no tempo, cercada pela sua exuberante geografia, que enquanto a bordava de belezas, a impedia de qualquer avanço econômico. A vocação de Laguna seria turística, atividade que só se estabeleceria como força econômica décadas depois.

Talvez essa estagnação de atividades econômicas e esse “esquecimento” de Laguna pelo resto do país tenha sido a grande responsável pela preservação do casario e do conjunto arquitetônico que se mantém hoje como um valioso patrimônio. O progresso não chegou na cidade como uma onda de “novo” que derruba o “velho” impiedosamente. A situação obrigava o “velho” a se manter em pé, sem outra alternativa. Até que, quando o progresso enfim chegou, percebeu que o “velho” já tinha virado antigo, e o derrubar para modernizar seria um grande erro.

casario01

Provavelmente boa parte da população ansiava pela mudança, eu mesmo cheguei a ouvir, quando jovem, na época do tombamento do casario de Laguna: “É bom que tombem tudo mesmo, essas casas velhas, e construam coisas mais novas”. Nesse língua maluca que é o português, “tombar” de derrubar é a mesma palavra de “tombar” de inventariar, manter sob proteção histórica.

Para a alegria de futuras gerações, o “tombamento” da segunda opção foi o que prevaleceu.

casario02

Mas, lembrando a força e importância que Laguna teve na atual formação do Brasil, e da sua atuação fundamental na colonização da potência que virou seu estado vizinho do sul, o brasão da cidade, desenvolvido pelo Afonso d’Escragnolle Taunay (filho do Visconde de Taunay, e bisneto de Nicolas-Antoine Taunay, pintor trazido com Debret para o Brasil), traz entre outras coisas, a figura do bandeirante, do soldado Barriga Verde e a inscrição em Latim:

AD MERIDIEM BRASILIAM DUXI.

Ao sul, conduzi o Brasil.

Brasão de Laguna

Brasão de Laguna

Wolfgang Ludwig Rau

14/04/2009
Wolfgang Ludwig Rau, em foto do site www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Wolfgang Ludwig Rau, foto do site http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Morreu, aos 93 anos, no dia 07 de fevereiro, em Florianópolis, Wolfgang Ludwig Rau.

No meio de tantas informações e livros sobre Anita, passei despercebido pela notícia, que me chegou somente hoje. Com muito atraso, portanto, vou tentar aqui fazer uma pequena homenagem ao maior biógrafo de Anita Garibaldi.

Rau era Suíço de origem alemã. Chegou ao Brasil em 1930, aos 14 anos, fixando-se em Lages. Naturalizou-se brasileiro em 1940, durante a Segunda Guerra, e prestou o serviço militar em Curitiba em 41. Engenheiro, projetista e arquiteto, foi sócio de várias firmas de engenharia e arquitetura em Lages e Florianópolis, onde fixou residência.
Era maçon, membro de várias comunidades garibaldinas e de pesquisas, que, ao longo dos anos, foram reconhecendo seus estudos e lhe concedendo títulos e medalhas de méritos.

A princípio como interessado em conhecer (e retribuir) ao país que tão bem o acolheu, foi estudar a história de Anita Garibaldi. Mas aos poucos essa curiosidade histórica se transformou em uma grande paixão, dessas que se pudessem, transporiam a fronteira tempo-espaço. Sua fixação à Anita era tão grande que sua segunda esposa tinha as feições muito parecidas com as imagens mais conhecidas da heroína, e ele fazia questão de que ela se apresentasse vestida “de Anita” em eventos em que era convidado ou homenageado.

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

Em uma época em que os recursos e facilidades não existiam, fez, por conta e recursos próprios, dezenas de viagens aos sítios históricos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai, Itália, refazendo o caminho de Anita e de Garibaldi, levantando documentos, objetos, depoimentos, tirando fotos e cópias de tudo o que pudesse, além de comprar objetos dos mais variados tipos. Este acervo garibaldino ficou durante décadas em um apartamento em Florianópolis. Generoso e desejoso de que Anita tivesse sua história e seu valor mais reconhecido, abriu as portas de seu acervo, construído de forma tão difícil e trabalhosa, para todos os que quisessem pesquisar ou escrever sobre a personagem. E assim, muitos autores, nacionais ou estrangeiros, beberam de suas fontes e construíram suas obras a partir do que ele conseguiu juntar.

Também escreveu, claro. Anita Garibaldi, O Perfil de Uma Heroína Brasileira, de 1975, é seu livro mais conhecido, até hoje sem republicação. Um catatau de quase 530 páginas, com algumas informações até então inéditas, fotos e ilustrações.

rau_capa_peq1

Como arquiteto, Rau arriscava tracejar também mapas e ilustrações, muitos deles reproduzidos em livros de autores posteriores.

Em 2006 o acervo garibaldino de Rau foi comprado pelo Governo de Santa Catarina depois de um longo processo burocrático, e cedido à Laguna. Encontra-se hoje na casa Pinto Ulysséa, ao lado da fonte Carioca, no centro de Laguna.

Não se encontra dentro dos melhores estados de conservação, e nem com apresentação à altura. Fazem falta coisas óbvias, como material explicativo aos visitantes e funcionários minimamente informados sobre a históra de Anita e os objetos do acervo. Até mesmo a localização ao lado do complexo da fonte da Carioca, que ocupa uma área grande de mato e pé de morro, além de cisterna, atrás da bela casa Pinto Ulysséa, deve proporcionar uma umidade que não indica bom local para um acervo de livros raros e materiais tão perecíveis. Não é preciso muito trabalho para achar problemas sérios: quando visitei, entre dezenas de coisas, vi um brasão do Império Brasileiro em madeira, todo cheio de buracos com cupins trabalhando à todo vapor, fatalmente levando a pequena peça a caminho da ruína.

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

De qualquer forma, o acervo hoje é um bem público, acessível a visitação, localizado na cidade onde mais está presente a heroína para qual o pesquisador dedicou sua vida. Ele fez, e muitíssimo bem, a parte que achou que devia.

E sem a qual o meu modesto projeto não seria, de forma alguma possível.

Detalhes tão pequenos de nós dois…

09/04/2009

Uma pequena mostra da dificuldade de construir um roteiro histórico, que mescla aventuras, romance, batalhas e deslocamentos por terra e água, geralmente com pouca documentação.

Anita e Garibaldi fizeram uma verdadeira epopéia de deslocamentos, desde que se conheceram até que foram assentar-se no Uruguai.
Parte desses deslocamentos aconteceu já quando ela tinha seu primeiro filho, saindo de Mostardas, passando por Viamão, Vacaria, Cruza alta, São Gabriel. É como fazer um quadrado dentro do estado do Rio Grande do Sul, mas sem completar o último lado.
A parte mais difícil deste trajeto foi logo no início, a subida da Picada das Antas, um vale sinuoso formado pelo rio das Antas, cujo leito em zigue e zague oferecia na época uma das poucas alternativas de se subir o paredão da Serra Geral vindo da campanha gaúcha para Vacaria. De tão difícil, até hoje é uma região bastante preservada. Foi uma subida dura de 9 dias embaixo de chuva, e quase todos os animais e parte das pessoas que iniciaram o trajeto não chegaram ao fim, sobretudo mulheres e crianças. Não à toa, próximo dali, formaram-se anos depois algumas cidades que, em homenagem, ganharam alguns nomes que por ali passaram nessas heróicas idas e vindas: Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha.

Garibaldi descreve, em seu relato transcrito por Alexandre Dumas, logo na primeira linha do capítulo “Picada das Antas”:
“Aquela retirada, empreendida sob estação hibernal”….

Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, LP&M, 1998, pg 106

Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, LP&M, 1998, pg 106

Quase todos os historiadores consultados foram na onda dele.
antas_inverno02
antas_inverno03

antas_inverno04

antas_inverno05

Mas não fazia sentido.
Anita teve seu filho antes, em setembro de 1840. Primavera.
Este deslocamento da tropa farroupilha, que, deduzindo por relatos, durou 3 meses, chegou ao fim documentadamente em março de 1841. Quase outono. E Garibaldi afirma que seu filho tinha 3 meses quando subiram a Picada das Antas.
Portanto, a subida da serra das Antas se deu entre dezembro de 40 ou janeiro de 41 (confirmando o próprio Rau, no livro “Vida e Morte de José e Anita Garibaldi”).

Wolfgang Ludwig Rau, Vida e Morte de José e Anita Garibaldi, Edição do Autor, 1898, pg 51

Wolfgang Ludwig Rau, Vida e Morte de José e Anita Garibaldi, Edição do Autor, 1898, pg 51

Como se sabe, seja no Mato Grosso, na Argentina ou no Rio Grande do Sul, dezembro não é inverno abaixo do equador. Foi um verão de muitas chuvas, e o clima da Serra deveria ser muito frio, sobretudo para quem ficou 9 dias molhado e sem abrigo. Garibaldi foi traído pela memória ou pela retórica, clima de inverno não quer dizer estação do ano.
Não havia lógica na informação, mas as fontes confirmavam. Para esclarecer, foi necessário montar todo o quebra-cabeça, preencher lacunas e conseguir achar o período exato da epopéia.

As vezes ficamos dois dias ou mais apenas procurando esclarecer um detalhe como esse, para poder contar a história de forma linear e clara.

Como justiça, declare-se que tanto Rau quanto Brasil Gerson não foram pela lembrança de Garibaldi. Rau, em “Anita Garibaldi”, não repete que “era inverno”, mas também não aponta o erro de Garibaldi, talvez por considera-lo sem importância.
Já Brasil Gerson, apesar de escrever uma biografia romanceada, corrige claramente:

Brasil Gerson, Anita e Garibaldi, Guerrilheiros do Liberalismo, José Bushatsky Editor, 1971, pg 49

Brasil Gerson, Anita e Garibaldi, Guerrilheiros do Liberalismo, José Bushatsky Editor, 1971, pg 49

O tal “processo”…

07/03/2009

Se você perguntar a cada desenhista o seu processo de trabalho, vai encontrar, talvez, uma  resposta diferente para cada autor perguntado. Existem excelentes escolas de quadrinhos e livros falando sobre isso.
Não  há uma forma “correta” de processo, passo a passo. Cada um vai inventando o seu jeito, de acordo com preferências e deficiências.
O meu processo, pelo menos neste álbum que é histórico, com sua seqüência cronológica um pouco mais rígida, está sendo assim:

1- pesquisa-se a história toda que se quer contar. Vão acumulando 10, 20, 30 livros e impressos, cheios de post-its.
livros

2- paralelo a isso, ou um  pouco depois de começar, faz-se uma lista, ano a ano, de todos os acontecimentos e coisa relevantes à história. Uns chamariam isso de “escopo”, outros de “efemérides”, nomes feios, eu prefiro chamar de listão. Neste momento, é importante saber que nem tudo vai entrar na história.  Na verdade, talvez nem 10% do que você colocar no “listão” vai entrar no final, mas é importante ter as informações ali. Esta parte é bem trabalhosa, porque aqui tem informações que não “batem”, uma fonte diz uma coisa e a outra não confere, e você tem que fazer triangulações entre várias livros e fontes até achar o dado correto, ou aquele que você acredita ser o mais coerente.
listao

3- quando se tem (ou se acha que tem) informação suficiente, dá pra começar a colocar a coisa em forma de roteiro. Volta-se às fontes para pegar detalhes, há um aprofundamento já pensando na “ação”, em “como” a coisa vai ser contada. Também é importante lembrar que isso é um rascunho de roteiro. As informações que vão entrar não são definitivas, esse processo tem muito de leva e traz. Na hora de distribuir nas páginas e colocar diálogos, escolher  o fluxo de imagens e as quebras de página, tudo isso pode ter que se transformar. Com alguns anos de prática fazendo roteiros para si para os outros, a gente acaba ganhando um certo traquejo. Nessa hora é que aparecem as idéias e soluções para “como” contar a  história. Crescem alguns personagens, outros são descartados, outros criados para exercer uma “função” específica. Muitas vezes você se surpreende com as soluções que tem que encontrar.
roteiro_imagem

4- e você me pergunta: e o desenho? Bem… nessa hora, se você for um desenhista típico, com grafite nas veias, provavelmente já fez vários aperitivos e estudos dos personagens e dos quadros, talvez uma arte final de alguma cena que você adorou. Desenhos “inspiracionais”, ou os chamados concepts, também são usados, pra dar gostinho e uma “cara” ao projeto. Se você é assim, tenho inveja de você.
Desenhos acabados e finalizados, fiz 5 páginas “prontas” no projeto que enviei para a Secretaria da Cultura do Estado, que podem ou não entrar no roteiro final. E fói só. Mas agora, com 60% do roteiro escrito, senti necessidade de ver a coisa “espalhada” no papel, paginada em balões, pra ter uma idéia do fluxo e da arrumação geral, e também, como encaixar o roteiro dentro do limite de páginas.

Também há algumas questões: qual o tamanho do corpo da letra? Qual o espaço dos textos nas páginas, combinado com as imagens?
Nesse caso a minha solução foi essa: eu monto as páginas de roteiro todas no computador, já na proporção da medida final, espalhando os “balões” com texto em “quadrinhos” inexistentes, imaginando mais ou menos a  cena que vai acontecer. Não há desenho ainda, mas dá pra fazer a história fluir. Planejo as quebradas de páginas e enxugo ou acrescento texto quando necessário. Eu “vejo” a pagina pronta, apesar de serem só blocos de letras espalhadas. Quando eu tiver os desenhos, vou colocando embaixo dos textos e apenas ajeito a diagramação.
1839_baloes

5- depois disso posso imprimir essas páginas, espelhadas em 2 (como qualquer livro que se abre para ler), com páginas ímpares à direita, em tamanhos bem pequenos (8 paginas por folha A4), com o texto quase ilegível, apenas como referencia para fazer os primeiros esboços. Facilita a etapa do desenho. É importante saber suas deficiências, para elimina-las ou criar condições para que elas não te atrapalhem.

miniaturas8

6- em uma folha A3 faço a versão aumentada dessas miniaturas, com uma rabiscada que só faz sentido para mim. Não é nenhum desenho ainda, mas eu já posso ver ali os problemas que vou enfrentar, esboçar alguma composição interessante, mexer no roteiro para que as viradas de páginas (quando você sai de uma página ímpar e vira para uma página par do outro lado) sejam valorizadas (suspense, surpresa, etc).
Aqui a HQ está começando a virar papel.
Depois, na hora de desenhar pra valer, tem outra pesquisa: de roupas, de objetos, geografia, animais, embarcações, armamentos, etc…

Mas agora, é nesse estágio que está Anita: 60 a 70% do roteiro pronto, jogado em páginas diagramadas, que viraram um monte de rabiscos.

rasc_a3dupla

Laguna 1: geografia

26/02/2009

Laguna é uma cidade litorânea atípica.
No litoral brasileiro, com as praias e cidades voltadas quase todas para o leste, Laguna, charmosamente, resolve virar as costas e olhar para o oeste, onde o sol poente mergulha todo final de tarde na Lagoa de Santo Antônio.

Por do sol sob a Lagoa de Santo Antônio, visto do portinho no centro

Por do sol sob a Lagoa de Santo Antônio, visto do portinho no centro. Foto do autor.

Ligando o mar aberto e a laguna que lhe dá o nome, encontra-se um canal, antes sinuoso e raso, hoje mais retilíneo e seguro, pelo menos para embarcações pequenas e barcos pesqueiros de porte médio. Há uma colônia de golfinhos (botos) na lagoa, e o canal é a comunicação deles com o mar aberto onde vão buscar a pesca.
Não fosse a pequena largura do canal, poderíamos imaginar que Laguna é quase uma península, projetada entre o mar e a lagoa interna, fazendo uma composição rara em qualquer litoral do mundo, em que se misturam montanhas e campos planos, praias abertas e lagoas fechadas, canais e rios, banhados e dunas, cabos e faróis.

A "península" lagunense, com as lagoas Santo Antônio, Imaruí e Mirim à esquerda.

A "península" lagunense, com as lagoas Santo Antônio, Imaruí e Mirim à esquerda.

A cidade à leste, a priaia à oeste, os morros no centro, o canal ao sul. Ambas as fotos do Google Maps.

A cidade à leste, a praia à oeste, os morros no centro, o canal ao sul. Ambas as fotos do Google Maps.

Na região habitavam os índios carijós, conhecidos como patos, mas antes deles já habitavam um povo pré-histórico que deixou herança e vestígios fartos: os povos dos sambaquis.
Lamentavelmente, pouco sobrou de alguns sambaquis importantes, um em especial na Carniça (chamada hoje de Campos Verdes), destruídos para fazer areia de calçamentos e coisas assim.

Sambaqui da Carniça, na época considerado o maior do mundo. Hoje deve ter 20% do tamanho.

Sambaqui da Carniça, na época considerado o maior do mundo. Hoje deve ter 20% do tamanho. Para maiores detalhes: http://www.eps.ufsc.br/disserta98/albertina/cap3.htm

Entre a cidade e o mar aberto encontram-se dois morros ligados, o que fez, durante séculos, o caminho entre a praia e a cidade um trajeto a pé de quase três quilômetros, a ser percorrido contornando os morros, ou encarando-os pela parte mais baixa entre eles, numa enorme subida e descida, reduzindo o percurso à metade.
Os morros acabam funcionando como proteção para o forte vento nordeste, comum naquela localização, mas também como impedimento para o crescimento horizontal da cidade. Ou seja: mesmo com o posterior aterramento de parte de sua baía, Laguna estava, desde a sua fundação, espremida entre o canal, a Lagoa e os morros, condenada a ter no seu centro geográfico um tamanho fixo e imutável, impossibilitando a instalação de grandes indústrias no seu perímetro original.

Laguna vista do morro.

Laguna vista do morro. Foto do autor.

Hoje a cidade se estendeu por toda a orla da praia do Mar Grosso, também ao sul, após o canal, e ao norte, na praia do Gi, um gigantesco loteamento com pretensões internacionais está sendo preenchido aos poucos por mansões.

Centro de Laguna, visto da lagoa, em um barco.

Centro de Laguna, visto da lagoa, em um barco, foto do autor. Para maiores detalhes sobre Laguna, ler "Laguna, memória histórica", de Ruben Ulysséa.

O vento nordeste, e também o sul, são constantes e fazem ser comum nas praias a cena de turistas correndo atrás de seus guarda sóis. Nas praias de Laguna, os guarda sóis também se divertem.

Giuseppe Garibaldi

31/01/2009

As imagens que se tem de Garibaldi são sempre grandiloquentes. Peito estufado, queixo erguido. Há imagens dele mais velho, com os olhos miúdos e semblante cansado, mas aí ele já é um velho herói consagrado.

De fato, como herói romântico ele preenche as expectativas: aventureiro, sonhador, revolucionário, idealista, desapegado a dinheiro ou riquezas, viajando o mundo pra “libertar os povos” e também a sua Itália. Mas por outro lado, era bastante ingênuo, manipulador de fatos, tinha lacunas de formação política, era mais voluntarioso do que esclarecido e, como talvez tenha sido um dos primeiros vultos da história a poder revisar sua biografia em vida, se  colocou sempre com grande importância diante dos fatos e “limpou” a própria barra deixando diversos relatos.
Sua biografia mais conhecida foi escrita por Alexandre Dumas, pai, autor, entre outros, de O conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros. Além de virar amigo, era fâ de Garibaldi. Convenhamos, o escritor perfeito para o Garibaldi-personagem que o Garibaldi-homem queria deixar para história. O próprio Dumas optou por escrever sua biografia em detrimento de outro projeto, por achar mais interessante escrever sobre este homem vivaz e contraditório, do que sobre algum figurão inglês.

Morena misteriosa

24/01/2009

Quase toda a biografia de Anita Garibaldi está envolta em mistérios. A pouca documentação, a vida curta e atribulada fez com que ela deixasse poucas imagens confiáveis. Mas como ela era?
A mais conhecida e consagrada imagem de Anita é esta, feita por Gaetano Gallino, no Uruguai. É uma miniatura, que faz par com uma de Garibaldi, esta bastante fiel, o que deduz que a de Anita também fosse. Na peça exposta no Museo del Risorgimento de Milão há uma inscrição à mão de Ricciotti Garibaldi, filho mais novo de Anita, atestando que esta é a única imagem real de sua mãe.

Miniatura de Anita, segundo Gallino. Pintada no Uruguai

Miniatura de Anita, segundo Gallino. Pintada no Uruguai

Há outra imagem feita pelo pintor Gerolamo Induno, que os oficiais Garibaldinos que a conheceram disseram posteriormente que era a mais fiel aos seus traços originais.

Anita segundo um dos irmãos Induno

Anita segundo um dos irmãos Induno

O historiador Antônio Carlos Marega me contou um causo conhecido dos experts: Induno não quis vender este quadro à Ricciotti, o que o levou a escrever a declaração “autenticatória” no outro, para se vingar. Quando Anita morreu, Ricciotti tinha apenas dois anos.
O fato é que são as imagens mais “confiáveis” de Anita Garibaldi.

Mas a aura de heroína misteriosa fez com que muitos artistas se aventurassem em interpretá-la. Quase todos sobre as imagens mais conhecidas, com resultados bastante diferentes.

i-fã

24/01/2009

Criado em 1937, pelo governo Vargas, o Iphan teve no seu nascedouro a colaboração de gente como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, etc…
O Iphan está presente em muitas cidades, mas em um lugar como Laguna, que tem boa parte do seu centro tombado, a presença da instituição é muito mais forte. Para o bem e para o mal: o zelo na conservação das características originais de prédios e logradouros e o poder de veto até mesmo em reformas simples, como colocar ou não mais de um ar-condicionado em um prédio tombado, constrói uma relação tensa com os comerciantes locais, que entendem as limitações impostas como um “entrave para o progresso”.

Casarão sede o Iphan em Laguna

Casarão sede o Iphan em Laguna

Foi numa visita ao Iphan de Laguna, conversando com a responsável pela educação patrimonial Gizely Cesconetto de Campos, que fiquei sabendo que o acervo garibaldino de Wolfgang Ludwig  Rau estava em Laguna. Gizely inclusive me fez a gentileza de gravar sua tese de mestrado, que discorre sobre o patrimônio histórico de Laguna, além de arquivos com a evolução geográfica e arquitetônica da cidade, e um acervo com fotos de praticamente todas as dezenas de casas da área tombada. Também me passou o valioso contato de Antônio Carlos Marega, o arquivo humano mais completo sobre Laguna, sua história e sua gente. Mas o senhor Marega fica pra outro post.
O Iphan fica na Praça Vidal Ramos, 118, em frente à Igreja matriz de Laguna.

O começo da pesquisa

18/01/2009

Os primeiros passos para a pesquisa vieram de livros “fáceis” de encontrar. “A guerrilheira”, de João Felício dos Santos, presente do colega Spacca, numa tentativa de me encorajar num caminho em que ele já é um mestre. A biografia de Anita feita pelo Markun, encontrável em livrarias e sebos de São Paulo.

Mas o grande salto foi quando descobri o acervo de Wolfgang Ludwig Rau em Laguna (ver a página “O Projeto” ao lado). Em outro post falo mais sobre este homem singular que não tenho o prazer de conhecer. O fato é que o acervo está na casa Pinto D´Ulysséa, ao lado da fonte da Carioca, no centro, e lá fui eu começar o garimpo.

A Casa Pinto D’Ulysséa, foto do site Laguna InFoco

A Casa Pinto D’Ulysséa, foto do site Laguna InFoco

Dentro da casa, além de objetos variados – garibaldinos, imperiais brasileiros e peças arqueológicas de sambaquis- há, claro, dezenas de livros sobre Anita e Garibaldi. É o mais completo acervo sobre ela existente no mundo.

Com algum tempo de pesquisa, você começa a descobrir quais livros são mais interessantes, sob o seu ponto de vista. E alguns livros importantes eu tive sorte de encontrar, depois, em sebos de São Paulo ou Porto Alegre, o que me poupou algum trabalho.

Mas a pesquisa no acervo é mais ou menos assim: durante as viagens para Laguna, eu me instalo no fundo do acervo, com um  velho ibook, e procuro os livros que considero estratégicos.

Acervo de livros do Rau, visto de quem senta no fundo da segunda sala.

Acervo de livros do Rau, visto de quem senta no fundo da segunda sala.

Escolhido o livro, pego a câmera, vou para perto de uma fonte de luz natural e começo a fotografar, página por página. Espertamente, demorei quase metade do primeiro livro de 300 páginas para perceber que podia fotografar as páginas abertas, e economizar 50% do tempo e da tinta de impressão depois. Muito cuidado é necessário, alguns livros estão em estado delicado.

Fotografando os livros página a página.

Fotografando os livros página a página.

Depois, baixo no ibook e salvo num pen drive. Quando volto pra casa, em São Paulo, trato cada página no computador, dando o contraste e transformando em p&b.

Páginas já em p&b e contrastadas para dar leitura.

Páginas já em p&b e contrastadas para dar leitura.

Por fim, as páginas são impressas e viram encadernações espirais, cheias de post-its e anotações.

O produto final.

O produto final.

Como dá pra ver, desenhar é o final do processo.

Foi dada a largada!

18/01/2009

Serão 8 meses de ácaros, prancheta e calo nos dedos.

var sc_project=5690245;
var sc_invisible=1;
var sc_partition=63;
var sc_click_stat=1;
var sc_security=”5bae1967″;

iweb stats


View
My Stats