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Wolfgang Ludwig Rau

14/04/2009
Wolfgang Ludwig Rau, em foto do site www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Wolfgang Ludwig Rau, foto do site http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense

Morreu, aos 93 anos, no dia 07 de fevereiro, em Florianópolis, Wolfgang Ludwig Rau.

No meio de tantas informações e livros sobre Anita, passei despercebido pela notícia, que me chegou somente hoje. Com muito atraso, portanto, vou tentar aqui fazer uma pequena homenagem ao maior biógrafo de Anita Garibaldi.

Rau era Suíço de origem alemã. Chegou ao Brasil em 1930, aos 14 anos, fixando-se em Lages. Naturalizou-se brasileiro em 1940, durante a Segunda Guerra, e prestou o serviço militar em Curitiba em 41. Engenheiro, projetista e arquiteto, foi sócio de várias firmas de engenharia e arquitetura em Lages e Florianópolis, onde fixou residência.
Era maçon, membro de várias comunidades garibaldinas e de pesquisas, que, ao longo dos anos, foram reconhecendo seus estudos e lhe concedendo títulos e medalhas de méritos.

A princípio como interessado em conhecer (e retribuir) ao país que tão bem o acolheu, foi estudar a história de Anita Garibaldi. Mas aos poucos essa curiosidade histórica se transformou em uma grande paixão, dessas que se pudessem, transporiam a fronteira tempo-espaço. Sua fixação à Anita era tão grande que sua segunda esposa tinha as feições muito parecidas com as imagens mais conhecidas da heroína, e ele fazia questão de que ela se apresentasse vestida “de Anita” em eventos em que era convidado ou homenageado.

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

crédito: A Notícia, 08 de abril de 2001

Em uma época em que os recursos e facilidades não existiam, fez, por conta e recursos próprios, dezenas de viagens aos sítios históricos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai, Itália, refazendo o caminho de Anita e de Garibaldi, levantando documentos, objetos, depoimentos, tirando fotos e cópias de tudo o que pudesse, além de comprar objetos dos mais variados tipos. Este acervo garibaldino ficou durante décadas em um apartamento em Florianópolis. Generoso e desejoso de que Anita tivesse sua história e seu valor mais reconhecido, abriu as portas de seu acervo, construído de forma tão difícil e trabalhosa, para todos os que quisessem pesquisar ou escrever sobre a personagem. E assim, muitos autores, nacionais ou estrangeiros, beberam de suas fontes e construíram suas obras a partir do que ele conseguiu juntar.

Também escreveu, claro. Anita Garibaldi, O Perfil de Uma Heroína Brasileira, de 1975, é seu livro mais conhecido, até hoje sem republicação. Um catatau de quase 530 páginas, com algumas informações até então inéditas, fotos e ilustrações.

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Como arquiteto, Rau arriscava tracejar também mapas e ilustrações, muitos deles reproduzidos em livros de autores posteriores.

Em 2006 o acervo garibaldino de Rau foi comprado pelo Governo de Santa Catarina depois de um longo processo burocrático, e cedido à Laguna. Encontra-se hoje na casa Pinto Ulysséa, ao lado da fonte Carioca, no centro de Laguna.

Não se encontra dentro dos melhores estados de conservação, e nem com apresentação à altura. Fazem falta coisas óbvias, como material explicativo aos visitantes e funcionários minimamente informados sobre a históra de Anita e os objetos do acervo. Até mesmo a localização ao lado do complexo da fonte da Carioca, que ocupa uma área grande de mato e pé de morro, além de cisterna, atrás da bela casa Pinto Ulysséa, deve proporcionar uma umidade que não indica bom local para um acervo de livros raros e materiais tão perecíveis. Não é preciso muito trabalho para achar problemas sérios: quando visitei, entre dezenas de coisas, vi um brasão do Império Brasileiro em madeira, todo cheio de buracos com cupins trabalhando à todo vapor, fatalmente levando a pequena peça a caminho da ruína.

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

Tomada de parte do acervo na Casa Pinto Ulysséa

De qualquer forma, o acervo hoje é um bem público, acessível a visitação, localizado na cidade onde mais está presente a heroína para qual o pesquisador dedicou sua vida. Ele fez, e muitíssimo bem, a parte que achou que devia.

E sem a qual o meu modesto projeto não seria, de forma alguma possível.

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Laguna 1: geografia

26/02/2009

Laguna é uma cidade litorânea atípica.
No litoral brasileiro, com as praias e cidades voltadas quase todas para o leste, Laguna, charmosamente, resolve virar as costas e olhar para o oeste, onde o sol poente mergulha todo final de tarde na Lagoa de Santo Antônio.

Por do sol sob a Lagoa de Santo Antônio, visto do portinho no centro

Por do sol sob a Lagoa de Santo Antônio, visto do portinho no centro. Foto do autor.

Ligando o mar aberto e a laguna que lhe dá o nome, encontra-se um canal, antes sinuoso e raso, hoje mais retilíneo e seguro, pelo menos para embarcações pequenas e barcos pesqueiros de porte médio. Há uma colônia de golfinhos (botos) na lagoa, e o canal é a comunicação deles com o mar aberto onde vão buscar a pesca.
Não fosse a pequena largura do canal, poderíamos imaginar que Laguna é quase uma península, projetada entre o mar e a lagoa interna, fazendo uma composição rara em qualquer litoral do mundo, em que se misturam montanhas e campos planos, praias abertas e lagoas fechadas, canais e rios, banhados e dunas, cabos e faróis.

A "península" lagunense, com as lagoas Santo Antônio, Imaruí e Mirim à esquerda.

A "península" lagunense, com as lagoas Santo Antônio, Imaruí e Mirim à esquerda.

A cidade à leste, a priaia à oeste, os morros no centro, o canal ao sul. Ambas as fotos do Google Maps.

A cidade à leste, a praia à oeste, os morros no centro, o canal ao sul. Ambas as fotos do Google Maps.

Na região habitavam os índios carijós, conhecidos como patos, mas antes deles já habitavam um povo pré-histórico que deixou herança e vestígios fartos: os povos dos sambaquis.
Lamentavelmente, pouco sobrou de alguns sambaquis importantes, um em especial na Carniça (chamada hoje de Campos Verdes), destruídos para fazer areia de calçamentos e coisas assim.

Sambaqui da Carniça, na época considerado o maior do mundo. Hoje deve ter 20% do tamanho.

Sambaqui da Carniça, na época considerado o maior do mundo. Hoje deve ter 20% do tamanho. Para maiores detalhes: http://www.eps.ufsc.br/disserta98/albertina/cap3.htm

Entre a cidade e o mar aberto encontram-se dois morros ligados, o que fez, durante séculos, o caminho entre a praia e a cidade um trajeto a pé de quase três quilômetros, a ser percorrido contornando os morros, ou encarando-os pela parte mais baixa entre eles, numa enorme subida e descida, reduzindo o percurso à metade.
Os morros acabam funcionando como proteção para o forte vento nordeste, comum naquela localização, mas também como impedimento para o crescimento horizontal da cidade. Ou seja: mesmo com o posterior aterramento de parte de sua baía, Laguna estava, desde a sua fundação, espremida entre o canal, a Lagoa e os morros, condenada a ter no seu centro geográfico um tamanho fixo e imutável, impossibilitando a instalação de grandes indústrias no seu perímetro original.

Laguna vista do morro.

Laguna vista do morro. Foto do autor.

Hoje a cidade se estendeu por toda a orla da praia do Mar Grosso, também ao sul, após o canal, e ao norte, na praia do Gi, um gigantesco loteamento com pretensões internacionais está sendo preenchido aos poucos por mansões.

Centro de Laguna, visto da lagoa, em um barco.

Centro de Laguna, visto da lagoa, em um barco, foto do autor. Para maiores detalhes sobre Laguna, ler "Laguna, memória histórica", de Ruben Ulysséa.

O vento nordeste, e também o sul, são constantes e fazem ser comum nas praias a cena de turistas correndo atrás de seus guarda sóis. Nas praias de Laguna, os guarda sóis também se divertem.

i-fã

24/01/2009

Criado em 1937, pelo governo Vargas, o Iphan teve no seu nascedouro a colaboração de gente como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, etc…
O Iphan está presente em muitas cidades, mas em um lugar como Laguna, que tem boa parte do seu centro tombado, a presença da instituição é muito mais forte. Para o bem e para o mal: o zelo na conservação das características originais de prédios e logradouros e o poder de veto até mesmo em reformas simples, como colocar ou não mais de um ar-condicionado em um prédio tombado, constrói uma relação tensa com os comerciantes locais, que entendem as limitações impostas como um “entrave para o progresso”.

Casarão sede o Iphan em Laguna

Casarão sede o Iphan em Laguna

Foi numa visita ao Iphan de Laguna, conversando com a responsável pela educação patrimonial Gizely Cesconetto de Campos, que fiquei sabendo que o acervo garibaldino de Wolfgang Ludwig  Rau estava em Laguna. Gizely inclusive me fez a gentileza de gravar sua tese de mestrado, que discorre sobre o patrimônio histórico de Laguna, além de arquivos com a evolução geográfica e arquitetônica da cidade, e um acervo com fotos de praticamente todas as dezenas de casas da área tombada. Também me passou o valioso contato de Antônio Carlos Marega, o arquivo humano mais completo sobre Laguna, sua história e sua gente. Mas o senhor Marega fica pra outro post.
O Iphan fica na Praça Vidal Ramos, 118, em frente à Igreja matriz de Laguna.


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